demencia

Neurologista tira suas dúvidas sobre Demência

O que é demência?

Demência é o nome dado a um grupo de doenças que compromete progressivamente nossas funções cognitivas e pode se manifestar com prejuízos de memória, de linguagem, comprometimento da capacidade de raciocínio e planejamento, da capacidade de se orientar no tempo e no espaço e até da capacidade de convívio social, resultando em impacto negativo na nossa capacidade e independência para realização de atividades da vida diária.

Quais são os principais sintomas de demência?

“Não sei onde guardei as chaves…”, “esqueci da reunião…”, “esqueci o fogão ligado…”, “você já perguntou isso várias vezes…”, “você já contou essa história várias vezes…” Essas frases fazem parte da rotina de um paciente com dificuldades da memória e podem representar um distúrbio da chamada memória episódica. O indivíduo tem dificuldade de guardar novas informações, mas inicialmente ainda preserva memórias remotas, o que faz com que os familiares possam demorar a perceber o quadro demencial, pois o paciente consegue contar com detalhes fatos do passado. 

Outros sintomas das demências são as dificuldades de linguagem. Os pacientes podem começar a apresentar dificuldade para encontrar a palavra que desejam para expressar suas ideias, ou também trocar fonemas das palavras que desejam utilizar. Os familiares podem notar dificuldades na orientação espacial quando o paciente fica perdido em um restaurante, procurando a mesa onde estava sentado após ir ao banheiro, por exemplo. Podem ocorrer dificuldades com questões complexas como pagar contas e liderar finanças ou até mesmo dificuldade para a realização de cálculos matemáticos simples. Podem apresentar alterações comportamentais, de personalidade e do afeto com perda das emoções básicas apropriadas para cada contexto social. Muitas vezes a apatia é a alteração comportamental mais comum no início da doença, seguida pela irritabilidade. Uma pessoa que sempre foi competitiva pode se tornar agressiva, enquanto uma que sempre foi tímida pode parar de conversar totalmente.   

Demência ocorre só em idosos?

Não. As demências ocorrem mais comumente na população idosa, após os 65 anos de idade, e a causa mais comum é a Doença de Alzheimer. O avançar da idade é o fator de risco mais importante para o desenvolvimento da Doença de Alzheimer. No entanto, existem diversos tipos e diversas causas de quadros demenciais que podem ocorrer inclusive em pacientes jovens.

Quais são os fatores de risco para a ocorrência de demências?

Hipertensão arterial sistêmica (pressão alta), obesidade, colesterol elevado, diabetes, alcoolismo, tabagismo, uso de drogas, surdez, sedentarismo e baixa escolaridade são alguns dos fatores de risco adquiridos para a ocorrência de demências.

Demência é genético? Se o meu pai ou minha mãe recebeu o diagnóstico, isso significa que vou ter essa doença também?

É comum ocorrer um certo medo nos familiares quanto à possibilidade do diagnóstico de Doença de Alzheimer em um membro da família significar que todos os outros membros também terão a doença. A maioria dos casos é de ocorrência esporádica, ou seja, não é diretamente relacionado a questões genéticas que passam de geração em geração. As formas familiares, em que há padrão de herança dominante (ocorrem com maior frequência nos familiares), perfazem menos de 2% dos casos da doença e geralmente condicionam o início dos sintomas antes dos 65 anos de idade.

Como é feito o diagnóstico de demência? Existe algum exame específico?

O diagnóstico correto do tipo de demência que acomete o paciente é realizado principalmente com base na entrevista e nos testes realizados durante a avaliação com o neurologista. O modo como os sintomas se iniciaram e evoluíram, bem como os testes cognitivos realizados no consultório direcionam o diagnóstico. 

Muitos pacientes com demência apresentam um sintoma chamado “anosognosia”, que é quando eles não reconhecem que existe algum problema em sua condição de saúde. Nesse sentido, para que seja feita uma avaliação neurológica adequada do quadro demencial, é essencial a presença de alguém que more ou conviva com o paciente e seja capaz de fornecer informações importantes tanto sobre o passado quanto sobre o presente e o dia-a-dia do paciente. 

Não existe um exame complementar específico de sangue ou de imagem que diga qual é o tipo de demência que o paciente tem. Os exames laboratoriais e de imagem fornecem dados adicionais que reforçam a hipótese diagnóstica que foi construída na avaliação inicial e também podem contribuir para o diagnóstico de condições potencialmente tratáveis, que podem tanto ser causa da síndrome demencial quanto fatores de piora dos sintomas.

É importante também descartar estados confusionais agudos como os causados por infecções ou outros distúrbios metabólicos (como alterações da glicemia, do sódio e da função tireoidiana, por exemplo), lesões expansivas (tumores ou sangramentos cerebrais, por exemplo) e também doenças psiquiátricas. Nessa situação, o diagnóstico de demência é descartado e o tratamento será direcionado para a causa específica que foi identificada.

Existe cura para as demências?

Infelizmente, a possibilidade de cura é baixa e depende da causa identificada. Algumas causas são potencialmente reversíveis e outras não reversíveis.  Alguns exemplos de causas potencialmente reversíveis são tumores, depressão, transtornos metabólicos e encefalites autoimunes ou paraneoplásicas (secundárias a câncer). 

Em geral, as causas não reversíveis são resultantes de processos neurodegenerativos crônicos como, por exemplo, a própria Doença de Alzheimer e outras demências como a Demência Vascular, a Demência Frontotemporal, a Demência Parkinsoniana e a Demência de Lewy.

O que posso fazer para prevenir a ocorrência de demência?

Alguns aspectos como alta escolaridade, realização de atividades intelectuais como leitura, projetos, convívio social, realização de atividade física e alimentação saudável são fatores de proteção, pois aumentam o que chamamos de “reserva cognitiva”. 

Qual é o papel do neurologista no cuidado do paciente com demência?

Demência é considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma das doenças mais devastadoras, pois muitas vezes transforma a personalidade e incapacita o indivíduo, além de comprometer significativamente a dinâmica familiar principalmente nas fases avançadas. Para os casos de demência de causa neurodegenerativa como a Doença de Alzheimer, por exemplo, não existe tratamento curativo, apenas sintomático. Podem ser usados medicamentos específicos como os inibidores da colinesterase (donepezila, galantamina ou rivastigmina) e também outras classes de medicamentos como os antidepressivos. A combinação terapêutica ideal é individualizada, ou seja, não existe um tratamento padrão que serve para todos os pacientes. Nesse contexto, o (a) médico (a) neurologista tem um papel fundamental porque, além do diagnóstico correto, ele (a) é o profissional responsável por acompanhar o paciente e seus familiares durante todas as fases da doença, acolhendo, confortando, orientando, identificando e tratando os principais sintomas que comprometem a qualidade de vida dos envolvidos no cuidado.  

Deixe uma resposta

Seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios estão marcados *

Postar Comentário