Foto: Lucas Neiva

Projeto Dr. Patas amplia visão humanizada no atendimento

 

Passar dias, semanas e até meses dentro do ambiente hospitalar gera desgaste físico e emocional a quem passa pela experiência. Estar afastado do convívio familiar e social, enfrentar tratamentos demorados, dores, efeitos colaterais, tudo isso traz impacto para a saúde mental do paciente.

Olhar o sujeito por inteiro, perceber o ser humano que passa por essa situação, e ir além das necessidades do tratamento “físico” foi o que motivou a médica intensivista do Hospital Anchieta, Dra. Júlia Tolentino, e a psicóloga da instituição, Fernanda Meira, idealizarem o projeto batizado de Dr. Patas.

Segundo a médica, a Terapia Assistida por Animais (TAA) ou Zooterapia ajuda a diminuir sintomas de depressão, ansiedade e estresse. “São nítidos os benefícios para o paciente. É ótimo poder contar com o auxílio desse ´doutorzinho´”, diz Dra. Júlia em referência a Khronnos, cachorro integrante do projeto e responsável por levar amor e alegria aos adultos e crianças internados.

É importante ressaltar que a entrada de animais na área de hospitalização atende a normas estabelecidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e respeita os critérios definidos pelo Centro de Segurança Assistencial (CSA) do Hospital Anchieta. O protocolo rigoroso visa a garantir a segurança do paciente, da equipe e do animal. Ele inclui, entre outras medidas, a autorização expressa do médico que acompanha o paciente, laudo veterinário atestando as boas condições de saúde do pet, carteira de vacinação atualizada e condições de higiene adequada.

O Golden retriever Khronnos é um dos primeiros voluntários do projeto, que teve início em dezembro e já realizou duas visitas-teste para verificar como seria a recepção dos pacientes e da própria equipe ao novo “doutor”. Segundo a psicóloga, a presença dele muda o ambiente. “Os pacientes aguardam ansiosos a chegada do Khronnos, é um acontecimento aqui no hospital. E não são apenas eles que anseiam a sua chegada, a equipe também se encanta com a amorosidade do nosso cão terapeuta”, conta.

A passagem do cãozinho pelos leitos gera conversa para muitos dias. “Quem fica internado, passa dias em um hospital, acaba sempre conversando sobre os mesmos assuntos: se está melhor, se tomou a medicação, se vai ter alta. O Khronnos traz outra perspectiva, traz alegria, traz carinho, faz com que eles tenham história diferente para contar aos familiares”, relata Dra. Júlia.

Receber a visita desse novo doutor trouxe leveza e positividade ao dia de Maria Tereza de Azevedo Souza, 66 anos. “Ele traz muita alegria para nós pacientes. Acho que ele vai levar minha doença embora”, conta.

As visitas do pet são sempre acompanhadas pela tutora, Cláudia Casali. Ela, que é jornalista e terapeuta, conta que Khronnos já é experiente no ramo. “Ele já participou de ‘atendimentos’ em clínicas, como quimioterapia, acompanhamentos terapêuticos e também em hospitais de outros estados. Observo, como terapeuta, uma melhora quase imediata, ele acalma as pessoas, traz leveza ao ambiente”, compartilha a tutora.

Inicialmente, os testes foram realizados com pacientes da Unidade de Terapia Intensiva para Adultos (UTIA) e da internação. A repercussão foi tão positiva que as responsáveis pelo Dr. Patas planejam visitas mensais. A definição de quem vai receber a visita é feita com base em critérios como estado de saúde do paciente, tipo de tratamento realizado, restrições no quadro clínico e, claro, se a pessoa gosta de cachorro. “Sempre verificamos com a pessoa internada se ela deseja que o Khronnos passe pelo leito”, enfatiza a médica.

Protocolo

Além das medidas mencionadas acima, a médica explica que existe um minucioso controle de infecções. “São feitas culturas semanalmente para saber se o paciente possui alguma bactéria. Só visitamos aqueles que estão sem infecção. Essa seleção faz parte da nossa triagem e tem por objetivo evitar a propagação de patógenos entre eles”, ressalta.

Dra. Júlia ainda destaca que o cão deve passar por um banho específico antes de ir ao hospital e que nunca são visitados pacientes com alergias e problemas respiratórios. “Todas as exigências visam evitar a contaminação cruzada de pacientes”, conclui.
Quanto ao animal, é preciso sempre utilizar a coleira e estar acompanhado da tutora.