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Dor de Cabeça ou Enxaqueca? Saiba Como Diferenciar.

 

A cefaleia, popularmente conhecida como dor de cabeça, é motivo de grande parte das consultas neurológicas. Mais de 95% das pessoas tiveram ou terão cefaleia no decorrer da vida. Existem mais de 200 tipos de cefaleia, sendo divididas em dois grandes grupos: primárias e secundárias.

Primárias (sem lesão estrutural): a cefaleia é a própria doença. O diagnóstico é basicamente clínico. Representam 90% do total, sendo as mais frequentes a enxaqueca, tensional e em salvas.

Secundárias: a cefaleia é o sintoma provocado por doenças demonstráveis nos exames clínicos, laboratoriais e/ou imagem. Dentre elas estão doenças graves como: meningites, HSA, TVC e tumores do sistema nervoso central.

Alguns fatores associados à dor são considerados sinais de alerta, que devem ser investigados com urgência.

 

  • “Primeira ou pior cefaleia” experimentada pelo paciente, principalmente de início súbito ou explosivo (pico de intensidade em menos de um minuto);
  • Cefaleia de início tardio (após os 50 anos);
  • Cefaleia nova em paciente imunodeprimido ou com risco de desenvolvimento de metástases (SIDA, neoplasia sistêmica, outros);
  • Evolução ao longo de dias e semanas com aumento contínuo da intensidade e/ou da frequência ou mudança de padrão em paciente com cefaleia primária prévia;
  • Ocorrência recente de convulsão ou traumatismo de crânio/coluna cervical,
  • Mudança de padrão ao deitar, desencadeamento da crise por atividade física/sexual ou cefaleia que desperta o paciente;
  • Fatores de risco para trombose de seio venoso cerebral (uso de contraceptivo oral combinado + tabagismo, trombofilias, puerpério);

 

Enxaqueca

Dentre as cefaleias primárias, temos a enxaqueca como exemplo. É uma doença crônica bastante comum e incapacitante, muitas vezes negligenciada.

 

1) O que é enxaqueca?

A enxaqueca é um tipo de dor de cabeça gerada por alterações químicas no cérebro que afetam a sensibilidade de estruturas capazes de transmitir e perceber estímulos dolorosos como o nervo trigêmeo, os vasos sanguíneos cerebrais e estruturas ao redor do crânio como músculos e outros nervos mais superficiais. O cérebro em si não dói.

A dor da enxaqueca tem característica pulsátil, normalmente unilateral, dor de moderada a forte intensidade e pode ser acompanhada de náuseas, vômitos, intolerância à luz, barulho e cheiros. Alterações visuais, vertigem e dormência podem preceder as crises e são chamadas de aura, normalmente com duração menor que uma hora.

 

2) Existem tipos diferentes de enxaqueca?

Sim. A enxaqueca pode ser classificada basicamente quanto à frequência, a alguns sintomas associados e subtipos genéticos específicos. Assim, quando a dor acontece até 14 vezes por mês é chamada de enxaqueca episódica e quando acontece até 15 vezes por mês, com até 8 episódios com características típicas de enxaqueca por no mínimo 3 meses seguidos, é chamada de enxaqueca crônica.

Alguns pacientes apresentam sintomas neurológicos peculiares antes ou durante a dor como alterações visuais (manchas, raios, luzes), sensitivas (formigamento ou dormência), vertigem ou fraqueza em um dos lados do corpo. Esses sintomas são chamados de aura e são desencadeados por alterações elétricas na superfície do cérebro.

 

3) O que causa a enxaqueca?

A causa da enxaqueca ainda não foi totalmente elucidada, porém existe componente genético e fatores ambientais envolvidos. Algumas pessoas têm gatilhos específicos para a dor como: privação ou excesso de sono, jejum prolongado, estresse emocional, exposição a alguns alimentos (embutidos, defumados, adoçantes, álcool, queijos, outros derivados de leite, chocolate), falta de café e estresse emocional.

 

4) Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico da enxaqueca é clínico, baseado em critérios bem definidos. Exames de imagem e outros exames complementares podem ser necessários para avaliar diagnóstico diferencial ou fatores que podem contribuir para piora da dor. Essa avaliação e decisão deve ser feita por neurologista após avaliação adequada.

– Critérios diagnósticos:

A. Pelo menos 5 crises preenchendo os critérios B-D

B. Cefaleia durando de 4 a 72 horas (sem tratamento ou com tratamento ineficaz)

C. Cefaleia com pelo menos duas das seguintes características:

1. Localização unilateral;

2. Qualidade pulsátil;

3. Intensidade moderada a intensa;

4. Se exacerba ou inibe atividades físicas rotineiras (por exemplo, caminhar ou subir escadas)

D. Durante a cefaleia, pelo menos um dos seguintes itens está presente:

1. Náusea e/ou vômitos

2. Fotofobia e fonofobia

E. Não é melhor explicada por outro diagnóstico da ICHD-3.

 

 

5) Qual o tratamento da enxaqueca?

O tratamento consiste em medicações abortivas de crise e preventivas, dentre elas temos ansiolíticos, anti-hipertensivos, anti-epilépticos, toxina botulínica e anticorpo monoclonal. O manejo adequado da dor leva à melhora da produtividade, maior envolvimento em atividades sociais e melhora do humor. Além do uso de medicações preventivas , devemos controlar fatores desencadeantes de crises, como privação de sono, odor, estresse, jejum prolongado dentre outros. Algumas pessoas apresentam crises sem fatores desencadeantes evidentes, enquanto outras podem apresentar um ou mais fatores. Procure seu neurologista para sanar dúvidas e tratar sua dor de cabeça.

Como estratégia não farmacológica, a atividade física é um importante aliado no tratamento e prevenção da enxaqueca. Os estudos mostram que para obter um efeito significativo são necessários pelo menos 150 minutos de atividade física aeróbica por semana. Outras estratégias com menor evidência científica, mas que podem ter benefício em alguns pacientes são a acupuntura, biofeedback e o estimulador transcutâneo do nervo trigêmio.

 

6) Você toma remédios para dor de cabeça todos os dias e a sua dor só piora?

Um dos maiores problemas que agravam a frequência e intensidade das crises de enxaqueca é o uso excessivo de analgésicos. Uso excessivo é tomar analgésicos comuns (paracetamol, dipirona, trometamol, anti-inflamatórios) mais que 15 dias por mês e tomar analgésicos específicos para enxaqueca (sumatriptano, rizatriptana, naratriptana, di-hidroergotamina) ou opioides (tramal, codeína) mais que 10 vezes por mês. Usar analgésicos nessas quantidades faz com que o sistema natural de controle de dor do cérebro não funcione adequadamente e a dor piora muito em intensidade e em frequência.

Se esse for o seu caso, você precisa procurar um neurologista no consultório para te orientar como tratar adequadamente a dor e cessar o uso excessivo de analgésicos.

O uso de analgésicos para a enxaqueca é necessário e funciona muito bem quando feito na quantidade e frequência adequadas.

 

Autoria: Dra. Juliana de Sousa Batista e Dra. Fernanda Ferraz

Coordenadora: Priscilla Mara Proveti

Referências:

1) Headache Classification Committee of the International Headache Society (IHS). The International Classication of Headache Disorders, 3rd edition (beta version). Cephalalgia. 2018; Vol 38(1) 1-211.

2) OLESEN J. Discussion summary. In: OLESEN J, ed. Head- ache classification and epidemiology. Raven Press, New York, p. 227-228, 1994.

3) FRAGOSO YD. Management of primary headache in emer- gency services of Santos and surrounding towns. Rev Paul Med 116: 1650-1653, 1998.

4) MARANHÃO-FILHO. P. A ANAMNESE DAS CEFALÉIAS. Migrâneas cefaleias. v.9, n.1, p.18-22, jan./fev./mar. 2006

5) MARTINS Jr. C. R. et al. Semiologia Neurológica. Rio de Janeiro. Revinter. 2017.

6) Friedman BW; Lipton RB. Headache emergencies: diagnosis and managem ent Neurol Clin 2012; 30: 43

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8) Thomas MC, Musselman ME, Shewmaker J. Droperidol for the treatment of acute migraine headaches. Ann Pharmacother. 2015 Feb;49(2):233-40.

 

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